A tragédia de conhecer a verdade e não agir
A história testemunhou, repetidas vezes, sociedades que, diante da escolha entre compreender a verdade e agir de acordo com ela, preferiram sacrificar a ação em nome do conforto. Os habitantes de Kufa e muitos dos líderes influentes daquela época não tinham dúvidas sobre a legitimidade do Imam Hussein (a.s.). Eles haviam ouvido inúmeras vezes o Mensageiro de Deus (s.a.a.s.) afirmar: "Al-Hasan e Al-Hussein são os líderes da juventude do Paraíso." No entanto, esse conhecimento permaneceu apenas em suas mentes, sem alcançar seus corações nem orientar suas atitudes.
A verdadeira fé vai além do simples conhecimento. Quando a religiosidade permanece apenas nos lábios e não se enraíza na alma, ela desaparece diante da primeira grande provação.
Durante sua jornada para Karbala, o Imam Hussein (a.s.) descreveu essa realidade com clareza:
"As pessoas são escravas deste mundo; a religião permanece apenas em suas línguas. Enquanto sua vida lhes proporciona benefícios, elas a preservam; mas, quando são provadas pelas dificuldades, poucos permanecem verdadeiramente fiéis."
Conhecer a verdade sem possuir determinação para segui-la é como um monte de cinzas levado pelo vento das ameaças e das tentações. Os habitantes de Kufa reconheceram a verdade ao escrever cartas convidando o Imam, mas, quando chegou o momento do sacrifício, esse conhecimento não foi suficiente para vencer o apego aos interesses mundanos.
Essa é a primeira e maior lição de Karbala: conhecer a verdade, por si só, jamais salva uma sociedade.
O silêncio das elites
Sempre que os líderes intelectuais, religiosos e sociais deixam de cumprir sua responsabilidade de orientar a comunidade, a decadência torna-se inevitável.
Na tragédia de Ashura havia personalidades respeitadas que conheciam perfeitamente a corrupção do governo de Yazid, mas permaneceram em silêncio.
O Alcorão censura severamente essa postura:
"Por que os sábios e os homens de Deus não os impedem de suas palavras pecaminosas?"
O silêncio das elites abre caminho para a opressão.
Quando figuras influentes permaneceram em suas casas enquanto Ubayd Allah ibn Ziyad assumia o controle de Kufa, o povo perdeu suas referências e sua coragem.
O Imam Ali (a.s.) advertiu:
"Não abandonem a prática de ordenar o bem e proibir o mal; caso contrário, os piores entre vós governarão sobre vós. Então suplicareis a Deus, mas vossas súplicas não serão atendidas."
Também em nossos dias, o silêncio dos líderes intelectuais e culturais representa um dos maiores perigos para as sociedades. Quando aqueles que possuem conhecimento calam-se para preservar seus interesses, sua posição ou seu prestígio, criam as condições para que a falsidade domine a sociedade.
Ashura foi, em grande parte, consequência desse silêncio conveniente.
O medo do sacrifício e o apego ao conforto
Muitos dos recuos ocorridos ao longo da história islâmica tiveram origem no medo de perder a vida, os bens ou a posição social.
A pessoa acomodada aprecia a verdade, mas apenas enquanto ela não exige qualquer sacrifício.
Quando Shimr e Ubayd Allah espalharam ameaças e medo entre os habitantes de Kufa, muitos perderam a coragem, esquecendo-se da ordem do Alcorão:
"Não tenhais medo deles; temei apenas a Mim."
O medo altera o julgamento humano e faz com que tudo seja avaliado apenas sob critérios materiais.
Os habitantes de Kufa tentaram preservar suas vidas passageiras e, em troca, perderam sua felicidade eterna.
O Imam Ali (a.s.) afirmou:
"Quando tiveres medo de algo, enfrenta-o, pois o sofrimento causado pelo medo costuma ser maior do que aquilo que temes."
Quem teme sacrificar seus bens e sua vida pela verdade acaba, muitas vezes, oferecendo-os aos tiranos.
Os acontecimentos posteriores, como a Tragédia de Harrah e o movimento dos Tawwabun, demonstraram que aqueles que fugiram do sacrifício em Karbala acabaram enfrentando mortes ainda mais humilhantes, sem alcançar a honra reservada aos mártires de Ashura.
A indiferença social: a epidemia das sociedades
Poucas doenças sociais são tão destrutivas quanto a indiferença.
Ela nasce quando as pessoas dizem: "Isso não é problema meu."
Na visão islâmica, a sociedade é semelhante a um navio: o destino de todos está interligado.
O Profeta Muhammad (s.a.a.s.) afirmou:
"Quem amanhece sem se preocupar com os assuntos dos muçulmanos não pertence verdadeiramente a eles."
A indiferença destrói a sensibilidade moral.
Quando as pessoas se acostumam a permanecer em silêncio diante da corrupção e da injustiça, sua consciência perde gradualmente a capacidade de distinguir o certo do errado.
Em Kufa, muitos ouviram o clamor do Imam Hussein (a.s.):
"Há alguém que venha em meu auxílio?"
Mas fecharam as portas de suas casas para não ouvir o galope dos cavalos nem o choro das crianças de Karbala.
O resultado dessa indiferença foi a completa solidão da verdade no deserto de Karbala.
A lição eterna de Ashura para todas as gerações é que, no confronto entre a verdade e a falsidade, não existe neutralidade. Quem deixa de apoiar a verdade acaba, consciente ou inconscientemente, fortalecendo a falsidade.
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